O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (18), no Rio de Janeiro, que não aceita tratar as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, como fez o governo de Donald Trump com o PCC e o Comando Vermelho. A declaração foi dada no Complexo da Polícia Rodoviária Federal, em Irajá, na Zona Norte, durante o lançamento de um plano conjunto de União, estado e prefeitura para retomar territórios dominados pelo crime.
“Nós precisamos ganhar do crime organizado. Eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas, como diz o Trump”, afirmou Lula, que é candidato à reeleição. Em seguida, disse que, quando Trump fala em terrorismo, fala em terrorismo de Estado, e citou a trama golpista pela qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi condenado: “Era o Bolsonaro tentando dar o golpe de 8 de janeiro. Isso é terrorismo”.
Lula também mencionou o plano para matá-lo, junto com o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). “Esse era o plano. Isso é terrorismo de Estado”, disse. A referência é ao plano Punhal Verde e Amarelo, identificado pela Polícia Federal e elaborado, segundo as investigações, pelo general da reserva Mario Fernandes, que foi secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência no governo Bolsonaro.
Bolsonaro foi condenado pelo STF em setembro de 2025 a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. Terrorismo não está entre os crimes da condenação. O ex-presidente sempre negou ter tramado um golpe.
Apesar de rejeitar o rótulo americano, Lula comparou a ação das facções ao terror vivido nas comunidades. “Esses bandidos são terroristas para a família que mora no bairro, para as pessoas que estão na escola”, disse, ao citar moradores que precisam “pagar pedágio por conta do gás”. Segundo ele, o compromisso é “deixar o Rio de Janeiro livre da bandidagem”.
O plano apresentado nesta sexta integra forças federais, estaduais e municipais, com prioridade inicial no combate ao roubo de cargas e na asfixia da logística do crime. Os acordos firmados com o Ministério da Justiça também preveem a proteção de vias como a Avenida Brasil e as Linhas Vermelha e Amarela, além dos acessos aos aeroportos e ao porto. Lula dividiu a estratégia em três frentes: sufocar a logística e a mobilidade do crime, retomar territórios e fortalecer as capitais e as cidades mais populosas.
Participaram do evento o prefeito Eduardo Cavaliere e o governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Couto comanda o estado desde março, quando Cláudio Castro (PL) renunciou ao cargo com a vice-governadoria e a presidência da Assembleia Legislativa vagas. Segundo Cavaliere, o Rio passou a ser a primeira cidade a integrar o sistema nacional de inteligência, com dados do Civitas, o sistema de vigilância da prefeitura.
A classificação criticada por Lula foi anunciada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos em 28 de maio e passou a valer em 5 de junho. Com ela, PCC e Comando Vermelho entraram nas listas americanas de organizações terroristas estrangeiras e de terroristas globais especialmente designados, o que permite bloquear bens das facções e proíbe transações com elas. O anúncio veio um dia depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL) se reunir com o secretário de Estado, Marco Rubio, e Flávio afirmou ter pedido a medida.
Na terça-feira (15), um relatório enviado pela Casa Branca ao Congresso americano afirmou que o Brasil “falhou em confrontar” as duas facções e que elas transformaram o país em um centro do fluxo global de cocaína. O documento cobra do governo brasileiro medidas firmes contra os grupos. Em 2025, o Brasil já havia recusado um pedido dos Estados Unidos para classificar PCC e CV como terroristas.
Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula na eleição presidencial, defende o caminho oposto. O plano de governo que ele registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê declarar PCC, CV, milícias e as demais facções como organizações narcoterroristas. Na quinta-feira (17), na Bahia, o senador prometeu declarar guerra ao narcoterrorismo.
Mais cedo nesta sexta, em entrevista à Rádio Tupi, Lula disse, sem apresentar provas, que um candidato à Presidência seria ligado a milicianos do Rio e que muita gente da família Bolsonaro estaria envolvida com milícia. Flávio negou qualquer vínculo e reagiu: “Vou declarar PCC, Comando Vermelho e milícias como grupos terroristas. Lula está gagá”.
O governo defende outra via para endurecer o combate às facções: a PEC da Segurança Pública, de autoria do Executivo, que Lula voltou a defender no evento. O texto-base foi aprovado em comissão do Senado no início de setembro e cria a figura da organização criminosa de alta periculosidade, com regime mais duro para líderes de facções e milícias. A votação dos destaques deve ficar para depois das eleições, com primeiro turno em 4 de outubro. Na terça, Lula chamou o modelo lançado no Rio de “primeira experiência” da retomada de territórios.
























