O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou durante comício em Teresina, no Piauí, na noite desta quarta-feira (9), que não aceitará interferência estrangeira nas eleições de outubro e que espera que o tribunal eleitoral não tente uma “falcatrua” na disputa.
“Nós queremos provar que o brasileiro não deve nada a ninguém. Que não venham os americanos querer influir nas nossas eleições. Que não venha o Tribunal Eleitoral querer falcatrua. Porque a gente sabe o que eles são capazes. E se eles vierem se meter aqui, a gente ainda vai derrotá-los, vai derrotar os americanos e vai derrotar quem se meter”, disse o presidente, que é candidato à reeleição.
No discurso, Lula não deixou claro se a menção ao “tribunal eleitoral” era uma referência direta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele também não apresentou prova de irregularidade nem explicou a que tipo de falcatrua se referia. A frase apareceu logo depois da citação ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Na sequência, o presidente voltou a mirar o governo americano. “O Trump que se meta no país dele. Aqui é um problema nosso, de brasileiro, e ninguém tasca. Eles vão ter que aprender conosco uma lição: nós somos pobres, mas somos orgulhosos”, afirmou.
O trecho sobre o tribunal eleitoral se espalhou nas redes sociais nas horas seguintes ao ato e virou munição da oposição, que acusou o presidente de atacar as instituições democráticas e de preparar terreno para contestar o resultado da eleição.
Lula também criticou o uso de bandeiras dos Estados Unidos em atos da oposição. Segundo ele, a prática representa “vira-latismo” e traição ao país. “Aqueles que só carregam a bandeira do Brasil e vão para comício com bandeira americana são vira-latas, são traidores da pátria, que não tem nenhum compromisso com esse país”, declarou.
O ato reuniu no palanque o governador do Piauí e candidato à reeleição, Rafael Fonteles (PT), os candidatos ao Senado Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD), o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, e a ex-governadora Regina Sousa.
A primeira-dama Janja Lula da Silva também discursou e concentrou a fala na família Bolsonaro. “A família Bolsonaro não tem projeto para as famílias brasileiras. Eles não têm projeto para o Nordeste. Se dependesse do Bolsonaro, os nordestinos estavam comendo capim, vocês lembram disso”, disse.
A declaração sobre falcatrua chega depois de uma sequência de decisões da Justiça Eleitoral que atingiram a campanha petista. Em 30 de agosto, a ministra Estela Aranha, do TSE, suspendeu uma propaganda de Lula contra Flávio Bolsonaro (PL) por entender que a peça extrapolava os limites da crítica política admissível ao associar o senador a organizações criminosas.
Nas últimas semanas, o tribunal virou o principal campo de batalha entre as duas campanhas. A federação que reúne PT, PV e PC do B apresentou representações contra Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) por episódios na Festa do Peão de Barretos. A campanha de Flávio, por sua vez, acionou o TSE para questionar o uso do Palácio da Alvorada por Lula em uma entrevista de televisão.
A menção aos Estados Unidos tem contexto próprio. No fim de agosto, Lula e Trump conversaram por telefone por cerca de uma hora e vinte minutos, e as eleições brasileiras entraram na pauta. Na ocasião, segundo relato de interlocutores, o presidente brasileiro defendeu que a Justiça Eleitoral garante eleições livres e transparentes no país.
O primeiro turno será em 4 de outubro, e a disputa segue apertada. O Datafolha divulgado em 3 de setembro apontou Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno, com 46% a 44% no segundo. Já o levantamento BTG/Nexus de 8 de setembro mostrou Flávio com 46% e Lula com 45% no segundo turno, dentro da margem de erro.
Até a publicação desta reportagem, não havia registro de manifestação pública do TSE sobre a declaração do presidente.























