Advogado, servidor efetivo do Poder Judiciário catarinense desde 2000 e quatro vezes vereador em Indaial, Anderson Luz dos Santos — o Anderson Batata — é candidato a deputado estadual pelo PP, com o número 11456, e esteve nos estúdios do Jornal Razão em entrevista ao diretor Kaiann Barentin, dentro da cobertura das eleições 2026. Ele afirmou que o verdadeiro vencedor da última eleição para prefeito em Indaial foi a soma de brancos, nulos e abstenções, atribuiu o esvaziamento das urnas à classe política e não ao eleitor, e apresentou uma plataforma deliberadamente estreita: quatro bandeiras — neurodesenvolvimento, bem-estar animal, dores crônicas e valorização do servidor —, com meta declarada de 25 mil a 30 mil votos no Médio Vale do Itajaí.
A entrevista durou mais de uma hora e passou pela origem do apelido que virou nome de urna, pela derrota apertada em 2024, pela defesa da urna eletrônica somada ao apoio ao voto impresso, pelo que ele chama de custo prático da lacração e pela declaração de voto em Augusto Cury (Avante) para presidente, feita ainda em março, quando o escritor não tinha partido.
Assista à entrevista completa:
A derrota por poucos votos e o vencedor que ninguém conta
Candidato a prefeito de Indaial na última eleição municipal, Anderson Batata fez 13.727 votos, contra “quatorze mil e pouquinho” do vencedor. Os números oficiais do pleito de 2024 confirmam o relato: Silvio César da Silva (PL) foi eleito com 14.664 votos (41,27%), e o candidato do PP ficou com 38,63% — uma diferença de 937 votos. A margem mínima, porém, não é o dado que ele destaca.
“Nós tivemos um grande vencedor na eleição. Foi o branco, nulo e abstenção, que fez mais voto que todo mundo”, afirmou. A conta fecha: naquela eleição, Indaial registrou 12.393 abstenções, 1.370 votos nulos e 1.068 em branco. Somados, 14.831 — mais do que os 14.664 votos do prefeito eleito, e o equivalente a cerca de 29% de todo o eleitorado do município. Para o candidato, o dado expõe um diagnóstico maior: “os políticos não estão conseguindo conversar com as pessoas e com o público”.
Ele diz acompanhar resultados eleitorais de forma sistemática e sustenta que, do ano 2000 até 2024, houve “um aumento exponencial de pessoas que não participam mais da vida política”, com o país beirando 30% de brancos, nulos e abstenções. A responsabilidade, na sua avaliação, não é de quem deixou de votar. “Essa não é culpa do eleitor. A culpa é dos políticos”, disse, apontando a profissionalização da atividade como origem do descolamento: segundo ele, houve um tempo em que vereador não recebia salário e a política era exercida “por questão de honra”. O entrevistador registrou a campanha do JR pelo “Vote com Razão”, de escolha consciente em vez de abstenção, e o candidato emendou um apelo próprio — pesquisar ficha, histórico e propostas antes de votar: “Se você tem uma opção, procure, questione, mas não deixe de ir votar.”
De Batatinha, o apelido da escola, a vereador mais jovem de Indaial
O nome de urna nasceu de um apelido de infância. Baixinho e gordinho quando estudava no Colégio São Paulo, colégio salesiano de Ascurra, ele foi comparado ao personagem Batatinha, do desenho “A Turma do Manda-Chuva”. “E o pior, eu ficava bravo”, contou. Na primeira campanha a vereador, em 2000, decidiu virar o jogo: “Vamo fazer do bullying uma ferramenta de marketing”, disse, lembrando os outdoors com o slogan “para vereador, Anderson é Batata”. Pegou — e ele se elegeu.
A política, segundo o candidato, vem da família. Um tio materno, Silvio Gonçalves da Luz, foi quatro vezes vereador e duas vezes vice-prefeito, e havia sido o vereador mais jovem da história de Indaial, aos 22 anos — recorde que o sobrinho quebrou ao se eleger aos 21. Um tio paterno, conhecido como Serginho, protagonizou o episódio que ele diz ter chegado ao Fantástico: perdeu a eleição para prefeito por um único voto e, nos pleitos seguintes, foi prefeito duas vezes. Foi ouvindo os pedidos que chegavam à casa deles nos fins de semana, afirma, que passou a enxergar a política como “uma forma de praticar a caridade, de ajudar as pessoas de forma ordenada”.
O caminho, garante, foi planejado. Ele conta que os pais lhe deram uma regra ao vê-lo decidido ainda adolescente: “Primeira coisa que você precisa entender é que política não pode ser profissão” — por isso, primeiro a profissão, depois a disputa eleitoral. Entrou em Direito na FURB em 1997, aos 17 anos, passou em concurso público em 2000 e é hoje servidor efetivo do Judiciário catarinense e professor da Academia Judicial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, além de graduado em História, com duas pós-graduações, especialização em Gestão Pública e dois livros publicados sobre a história de Indaial. Filiou-se ao Progressistas aos 16 anos, quando, segundo ele, a legenda ainda se chamava PDS, a convite de Esperidião Amin (PP, nº 111), hoje candidato ao Senado, e de Angela Amin (PP, nº 1133), que disputa vaga de deputada federal e é nascida em Indaial. E revelou o objetivo anotado num caderno da época do Interact Club: “Eu vou chegar a ser senador da República.”
A polarização, a onda do PL e o desânimo pós-derrota
Questionado sobre o que faltou na campanha a prefeito, o candidato apontou o que chama de segundo grande desafio da política: a polarização, “maior” no Vale do Itajaí. Ele diz ter feito uma campanha ampla, com o MDB na vice de uma chapa do Progressistas e três ex-prefeitos historicamente rivais no mesmo palanque — comparação dele: “é como você botar o Esperidião Amin e o Luiz Henrique no mesmo palanque”. Mesmo assim, na sua leitura, faltou “sair da curva da polarização”: o Vale inteiro elegeu prefeitos do PL, e ele cita Brusque, Gaspar, Blumenau, Pomerode, Indaial e Timbó. “Foi uma onda regional”, afirmou, comparando ao ciclo de vitórias do PT na região nos anos 2000.
A derrota apertada cobrou preço. “Deu uma desanimada geral”, admitiu, dizendo ter ficado introspectivo, focado na família e no trabalho. O retorno, segundo ele, veio depois da visita de Esperidião Amin e Angela Amin e de uma conversa com o tio que perdera por um voto: “Batata, não desiste. Você é um rapaz novo. Eu já perdi por um voto”. Aceitou então o convite para disputar a Assembleia Legislativa e afirma ter ficado, no arranjo da federação União Progressistas, como candidato único do partido de Brusque a Presidente Getúlio.
Urna eletrônica, voto impresso e a eleição decidida por um voto
O entrevistador levantou a narrativa de descrédito no processo eleitoral, e o candidato fez o que classificou como “uma defesa da nossa democracia”. Ele lembrou 1998, quando deu seu primeiro voto para presidente — em Enéas, número 56 —, ainda em cédula de papel, com contagem manual por mesas e digitação posterior voto a voto na urna eletrônica, cujo resultado saía em disquete. Ao ser perguntado se aquilo não teria sido, na prática, a primeira auditoria das urnas, respondeu: “Exato”.
Batata afirma acreditar na urna eletrônica e no resultado, sustentando que o equipamento não tem conexão com internet, com ou sem fio, e que cada partido recebe o boletim de urna — método que, segundo ele, foi usado para conferir a eleição decidida por um voto em Indaial, confirmada na auditoria. Ainda assim, defende a impressão do voto e cita o projeto de Esperidião Amin: “Não custa nada. O preço da democracia, pra que tenha lisura e transparência, não é o preço dessa impressora.”
“Picolé de chuchu” ou equilíbrio?
Provocado sobre o risco de parecer alheio num ambiente em que o discurso é calculado para viralizar, o candidato não desconversou. “Eu já tive esse medo de ser considerado picolé de chuchu, de ser o em cima do muro”, disse, antes de rebater: “Mas eu chamo isso de equilíbrio”. Ele conta que muita gente o incentivou a mudar de postura quando as redes sociais mostraram que briga rende visualização, e recusou: “Não é fabricado. Eu sou assim”.
Fez questão de separar ponderação de neutralidade — “o que é errado tem que ser combatido, a corrupção precisa ser combatida” — e citou o saudoso vereador professor Almir, do PT, adversário em Indaial de quem diz ter sempre respeitado a posição. Para ele, o custo da lacração é prático: “A criança tá há dois anos esperando a consulta do neuropediatra e você só vai lá na rede social e briga.”
Quatro bandeiras estreitas: neuro, animais e dor crônica
Perguntado por que abandonou os eixos genéricos de campanha, respondeu que “a população cansou de proposta genérica” e que aprendeu o limite do mandato na estreia como vereador, quando protocolou 200 indicações de uma vez — “era o galo das Ilhas Galápagos”, brincou. Por isso, diz, escolheu quatro frentes: Santa Catarina Neurodesenvolvimento, Santa Catarina Bem-Estar Animal, Santa Catarina Sem Dor e a defesa do servidor público. “Não dá pra abraçar o mundo”, resumiu.
Na primeira bandeira, a Rede Neuro SC, ele afirma que uma a cada 35 crianças nasce com algum transtorno do neurodesenvolvimento — autismo, TOD, Tourette, TDAH — e que a fila do SUS para neuropediatra chega a dois anos, atrasando o diagnóstico precoce, o tratamento e a garantia de professor auxiliar. Defende um debate com especialistas e famílias sobre o tratamento, que “nem sempre deve ser de medicamento”, e levanta uma suspeita a apurar: “Hoje nós temos crianças que são superdotadas, na verdade, sendo tratadas como deficiência.”
Na causa animal, apresentou a proposta mais detalhada da entrevista: criar por projeto de lei a Política Estadual de Bem-Estar Animal, com um Conselho Estadual e um Fundo Estadual abastecido por recursos de multas ambientais hoje vinculados a contas do Judiciário — o que exigiria, segundo ele, que a lei enquadre a pauta também como questão ambiental, e não apenas como saúde pública e zoonoses. O dinheiro seria repassado a fundos municipais, porque “é o município que faz a castração, o credenciamento dos médicos veterinários, o resgate e a ração para quem resgata”. O entrevistador ponderou com o caso da lei estadual sobre pitbulls, que, na avaliação dele, reforçou o estigma sobre a raça e jogou no município uma conta sem recurso.
Batata contou ainda duas experiências pessoais que explicam a bandeira: aos 13 anos, precisou segurar o próprio cachorro para ser sacrificado depois de o animal morder uma pessoa; anos depois, a mãe lhe perguntou se seria ético fazer eutanásia no cão da família, já sem tratamento possível.
A terceira bandeira nasceu no mandato de vereador em 2021, quando um grupo de mulheres com fibromialgia procurou o gabinete pedindo um projeto de preferência em vagas de estacionamento. “Eu mal tinha ouvido falar o que seria isso”, admitiu. Ele diz que foi pesquisar e encontrou um problema regional silencioso, numa área de metalmecânica, metalurgia, tecelagem e costura, com casos de fibromialgia, reumatismo, dores crônicas e lesão por esforço repetitivo — pacientes que enfrentam diagnóstico difícil e ainda ouvem que são “fingidos”. O modelo que pretende levar ao Estado, afirma, é o de Criciúma, com parceria entre universidade e prefeitura para diagnóstico, atendimento, fisioterapia, psicólogos e medicamentos.
Servidor forte, sem privilégios: “é só seguir a Constituição”
Servidor de carreira, ele sustenta que a crítica popular ao funcionalismo mira, na verdade, os políticos e a má prestação de um serviço específico — e cita falta de água pela Casan no verão e mais de 24 horas sem energia elétrica no Vale do Itajaí, episódios que atribui à ausência de investimento. Sua bandeira, diz, é de mão dupla: serviço de qualidade para o cidadão e servidor bem remunerado, qualificado e com condições de trabalho, incluindo os aposentados, “porque já deram a sua contribuição para a sociedade”. Defende otimizar sem desumanizar: “As pessoas não são mais ouvidas, são tratadas como um processo, como um número, como um protocolo.”
O entrevistador ponderou a partir da própria experiência como servidor comissionado na área ambiental — que quem pede “desburocratização” muitas vezes quer facilidade, e que engenheiros e arquitetos de prefeituras sequer recebem o piso, ganhando cinco ou seis mil reais por mês. Batata respondeu que a saída é fazer a legislação valer para todas as carreiras, sem lobby de categoria. Sobre a cobrança por corte de privilégios, foi direto: “O privilégio é só você seguir o que diz a Constituição. Se seguisse o teto, tava resolvido”, citando os penduricalhos no STF e afirmando que a maioria dos servidores não recebe nada disso.
A conta dos votos, as emendas e as reformas que defende
O candidato expôs sem rodeios a matemática da campanha. O Médio Vale do Itajaí tem, segundo ele, 14 municípios e cerca de 600 mil eleitores, e o Progressistas fez mais de 50 mil votos apenas para vereador na região — base que ele persegue. A meta declarada é de 25 mil a 30 mil votos: “é o cálculo político que o Progressistas tem para a última vaga”, afirmou, projetando que a federação União Progressistas deve eleger cinco ou seis deputados estaduais, e não sete ou oito, “como muitos acham”.
Ele defende ainda o fim da reeleição, o voto distrital — com o qual, calcula, a região teria no mínimo seis deputados, e dez se votasse unida pela regra atual — e mandato fixo de oito anos para ministros do STF. Sobre emendas parlamentares, cujo teto médio ele estima em R$ 20 milhões impositivos por deputado, adiantou o critério: “Catorze municípios, cada município vai receber um milhão, no mínimo, todo ano”, com o restante destinado às quatro bandeiras, incluindo casas do autista e a política de dores crônicas.
Apoio a Augusto Cury e à chapa dos Amin
No fim da conversa, Batata reafirmou o apoio a Augusto Cury, do Avante, para presidente — declarado, segundo ele, ainda em março, quando o escritor sequer tinha partido, com uma mensagem enviada em abril oferecendo apoio “não importa o partido”. Ele justifica a escolha pela identificação com o que chama de projeto “capi-social”, que diz estar no estatuto do Progressistas: liberdade econômica, de imprensa e de expressão somada ao amparo estatal a quem precisa.
O entrevistador ponderou que o nome cresceu de 2% para algo entre 9% e 11% nas pesquisas e que ainda é preciso ver se o movimento se consolida — levantamentos divulgados entre 31 de agosto e 3 de setembro por Nexus, AtlasIntel, Real Time Big Data, Quaest, PoderData, Futura e Datafolha colocam Cury numa faixa de 7% a 11%. O candidato respondeu que os votos não estão saindo dos adversários, e sim do “eleitor cansado que tá sendo cativado”.
Pediu voto também para Angela Amin (PP, nº 1133), de quem se diz “afilhado político”, e declarou apoio a Esperidião Amin (PP, nº 111) e a Antídio Lunelli (MDB, nº 155), candidatos ao Senado, e a João Rodrigues (PSD, nº 55), candidato a governador. Na mensagem final, apelou ao eleitor catarinense: “Se nós deixarmos as pessoas mal intencionadas tomarem conta dos espaços políticos, nós vamos continuar tendo o Brasil que nós temos aí.”
As melhores frases
“Nós tivemos um grande vencedor na eleição. Foi o branco, nulo e abstenção, que fez mais voto que todo mundo.”
“Essa não é culpa do eleitor. A culpa é dos políticos.”
“Vamo fazer do bullying uma ferramenta de marketing.”
“Primeira coisa que você precisa entender é que política não pode ser profissão.”
“Uns têm o sonho de ser presidente, outros deputados. Meu sonho é ser senador da República.”
“Eu já tive esse medo de ser considerado picolé de chuchu, de ser o em cima do muro. Mas eu chamo isso de equilíbrio.”
“Não adianta você ter o discurso bonito, o discurso da lacração, e não resolver o problema das pessoas.”
“A cada trinta e cinco crianças que nascem, uma está com algum transtorno do neurodesenvolvimento e parece que nós estamos de olhos fechados.”
“A dor das pessoas está batendo na porta da política e a política está fechando os seus ouvidos.”
“O privilégio é só você seguir o que diz a Constituição. Se seguisse o teto, tava resolvido.”
“Já vi gente trocar de partido, já vi gente trocar de religião. Não vi ninguém trocar de time de futebol.”
“Se nós não ocuparmos o espaço pelas pessoas de bem, outras pessoas vão ocupar esse espaço.”
























