A pergunta era direta: o senhor e o prefeito Leonel Pavan estão dispostos a pedir desculpas para a mãe que perdeu o filho de 45 dias dentro do hospital do Município? A resposta do secretário de Saúde interino de Camboriú, Henrique Manuel Alves, não deixou margem para interpretação.
“Eu acho que o município não tem que pedir desculpa, o município tem que acolher”, declarou, em entrevista concedida ao Jornal Razão na tarde desta quinta-feira (13), horas após a morte do bebê.
Alves condicionou qualquer pedido de desculpas a uma comprovação futura de responsabilidade da administração municipal. “Pedir desculpas, eu teria que ver uma situação de responsabilidade que abarca o município”, afirmou.
Minutos depois, quando as perguntas se acumularam sem resposta, o responsável pela comunicação da Prefeitura de Camboriú interveio e mandou encerrar a entrevista.
ASSISTA AO VÍDEO

A criança havia sido levada ao Hospital Cirúrgico Camboriú com uma reação alérgica após ingerir fórmula infantil. Recebeu adrenalina e dexametasona, passou mal logo depois da aplicação e morreu após ser transferida para o Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí. A própria Prefeitura divulgou, em nota oficial, que os registros do prontuário apontam quantidade de medicamento superior à prescrita.
Entenda o caso
- “Ficou roxo”: bebê de 45 dias morre após receber medicação acima da dose prescrita em Camboriú
- ‘Eu imploro por justiça’: mãe denuncia descaso e abandono após morte de bebê em Camboriú
- Hospital contraria prefeitura de Camboriú e afasta pediatra e equipe de enfermagem após morte de bebê
- “O hospital agora é seu”: meses após discurso em Camboriú, Prefeitura tenta “lavar as mãos” após morte de bebê
Secretário se enrola sobre dose acima da prescrita
Foi justamente sobre a informação divulgada pela própria Prefeitura que o secretário se enrolou.
Questionado sobre a origem do dado, Alves afirmou que a informação foi repassada pelos profissionais do próprio hospital, em reunião realizada na madrugada. “Dentro dessa coleta de informação, é que nós fizemos uma nota”, explicou.
O problema: o diretor técnico do hospital, médico Alexandre Tolentino, afirmou ao Jornal Razão desconhecer esse dado. Confrontado com a negativa, o secretário respondeu: “Ótimo, então nós vamos averiguar isso que eu estou falando”.
Perguntado insistentemente sobre quem estaria dizendo a verdade, a Prefeitura ou o hospital, Alves repetiu que não há mentira de nenhum lado. “Não tem mentira, não tem mentira. Tem informações”, declarou. Segundo ele, a resposta definitiva só virá da sindicância. “Quem diz a verdade ali dentro, e não é uma verdade absoluta, o documento, é o prontuário.”
O secretário também não apresentou qualquer prazo para a conclusão da apuração. “Não existe um prazo estanque”, afirmou, explicando que a Prefeitura oficiou a empresa gestora para ter acesso à íntegra da documentação e que os prazos seguintes seriam administrativos e judiciais.
Acolhimento contestado pela família
Sobre o acolhimento à família, a versão oficial voltou a bater de frente com o relato da mãe. Alves sustentou que a Secretaria de Saúde oportunizou um “funeral digno”, que o apoio psicológico está sendo organizado e que o próprio deslocamento de secretários ao hospital durante a madrugada “já é um apoio à família”.
A família nega ter recebido qualquer amparo além de um caixão doado. Diante da contradição, o secretário afirmou que não é momento de rebater. “Eu acredito que não seja o momento de rebater, mas sim de acolher a família”, disse.
“A responsabilidade de fiscalização é do município”
Em outro trecho, Alves admitiu o ponto que a Prefeitura vinha deixando em segundo plano nas notas oficiais: “A responsabilidade de fiscalização é do município, através do contrato”. Ele confirmou que há gestor e fiscal designados pela administração e negou que a terceirização permita à Prefeitura se afastar do hospital.
O secretário defendeu a gestão citando o aumento de atendimentos na unidade, que teria saltado de 4,2 mil em dezembro para quase 8 mil em agosto, e uma aprovação de quase 90% da população no pronto-socorro, segundo seus números.
Sobre a promessa de “controle rigoroso de qualidade” feita por Pavan quando o Município comprou o hospital por R$ 9,6 milhões, Alves respondeu que uma suposta falha na ponta não significa necessariamente um problema de qualidade. “Os profissionais de saúde são humanos. Não existe uma máquina de inteligência artificial que faça aplicação de uma medicação”, declarou.
Questionado sobre a ausência do prefeito, que até aquele momento não havia se manifestado publicamente, o secretário negou que Pavan estivesse fugindo do caso. “O prefeito Leonel Pavan nunca fugiu de nada. Ele está falando através de mim”, afirmou.
Pavan quebra o silêncio após críticas
Horas depois, na noite desta quinta-feira, sob uma enxurrada de cobranças e de relatos de moradores sobre outras supostas falhas no atendimento do hospital, o prefeito quebrou o silêncio em publicação no Instagram.
“Como pai e avô, não consigo mensurar a dor que essa família está enfrentando”, escreveu Pavan, afirmando ter recebido a notícia “com profunda tristeza”.
O prefeito anunciou a abertura de sindicância “para apurar rigorosamente o ocorrido” e prometeu “responsabilizar quem quer que seja”. Também determinou que o governo faça “tudo o que for possível para acolher e apoiar a família”, colocando-se à disposição “em tudo o que for possível”.
A mãe do bebê, que procurou o Jornal Razão na noite anterior, segue cobrando respostas. “Eu quero justiça. Eu exijo respostas”, declarou. A sindicância anunciada pela Prefeitura e o processo interno da gestora do hospital seguem em andamento, sem prazo definido para conclusão.
Leia também: “Receba meu anjinho”: sob forte comoção, bebê que morreu em hospital de Camboriú é enterrado




















































