A 17 dias do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tirou mais uma promessa do bolso, e desta vez ela vem em forma de injeção. Em visita ao novo complexo industrial da Eurofarma, em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, nesta quinta-feira (17), Lula afirmou que a caneta emagrecedora vai ser oferecida de graça pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a pacientes com obesidade. Quando começa, quanto custa e quantas pessoas serão atendidas, o presidente não disse.
“Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar de graça das pessoas que tenham obesidade”, declarou, ao lado do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Segundo Lula, a entrega vai depender de indicação médica. O discurso não trouxe data de início, orçamento, nome de medicamento nem critério de fila. Também não ficou claro se a promessa vale para este mandato ou para um eventual quarto.
O anúncio fechou um dia generoso no calendário do Planalto. Pela manhã, em Brasília, o governo havia anunciado reajuste de 15,04% no Bolsa Família: o piso sobe de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio vai a R$ 777. Os novos valores entram na folha de outubro, com pagamento a partir do dia 19, entre o primeiro e o segundo turno. O custo estimado é de R$ 5,8 bilhões só em 2026. O governo sustenta que a correção apenas repõe a inflação acumulada desde março de 2023 e que há espaço fiscal para isso.
As duas bondades saíram no mesmo dia de uma pesquisa incômoda para o presidente. Levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado nesta quinta mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 47,2% e Lula com 46,8% em um eventual segundo turno, empate técnico dentro da margem de erro de um ponto percentual. No primeiro turno, Lula lidera com 44,1% contra 41,7%, mas a vantagem, que era de 5,6 pontos uma semana antes, caiu para 2,4. O instituto ouviu 5.018 eleitores entre 11 e 16 de setembro, por recrutamento digital, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi contratada pela Bloomberg e está registrada no TSE sob o número BR-06221/2026.
Antes de prometer o remédio, Lula fez questão de avisar que caneta sozinha não resolve e assumiu o posto de personal trainer da nação. “Tem gente que, para emagrecer, é preciso reeducá-lo do ponto de vista alimentar. Precisa voltar a aprender a comer coisas que façam bem para a saúde. Segundo, fazer um pouco de exercício”, disse. Em seguida, usou o próprio exemplo: “Eu tenho 80 anos, eu levanto todo dia às 5 e meia da manhã e malho duas horas. Sabe por que eu malho? Porque eu quero viver. Eu gosto de viver”.
O presidente detalhou o treino para a plateia de funcionários da fábrica: exercício para perna, para panturrilha e esteira. “Chego a correr a 8 km por hora. Significa que se eu posso, vocês podem. É só querer. No começo, vocês vão ter preguiça”, afirmou. Para quem é jovem e saudável, a receita foi ainda mais simples: andar. Ir comprar pão a pé, namorar a pé, fazer tudo a pé.
O cardápio do brasileiro também entrou no discurso. Lula disse que o médico, na hora de receitar, precisa orientar o paciente a trocar de comida. “Você não pode comer muito bacon. Você não pode comer muita gordura. Você não pode comer muita fritura”, listou, antes de mandar o povo parar de “ficar enchendo o bucho” de hambúrguer e “daquelas coisas gordurosas”. Recomendou comida orgânica, “de mais qualidade”, e distância dos enlatados, conselho que não veio acompanhado de tabela de preços.
Lula ainda reclamou da peregrinação de quem tenta emagrecer com acompanhamento. Defendeu que o paciente saia do consultório já orientado por nutricionista e fisioterapeuta, em vez de pagar cada profissional separadamente. “Três consultas para a mesma coisa. É demais”, disse, acrescentando esperar que um dia o país avance nisso. Como no caso da caneta, não houve prazo.
O momento mais comentado do discurso foi o caso de um prefeito que o presidente disse ter conhecido recentemente, sem citar nome nem cidade. “Pesava 205 quilos. Padilha, ele hoje está com 105. Sabe quanto de pele ele tirou do corpo dele? 15,5 quilos. Tirou um Lula de dentro dele”, contou, arrancando risos da plateia.
Na sequência, Lula criticou quem pretende transformar o remédio em brinde. “Daqui a pouco vai ter gente distribuindo canetinha para tudo”, afirmou, citando deputados e candidatos jogando caneta para o povo. “Isso é irresponsabilidade. Porque a pessoa tem que saber se pode ou não tomar, se vai fazer bem para a saúde ou não.” O alerta contra o uso eleitoral da caneta foi feito por um candidato à reeleição, a 17 dias da urna, pouco antes de seguir para um ato de campanha na mesma cidade.
No papel, o caminho até a caneta chegar ao posto de saúde é longo. Em 2025, a Conitec, comissão que decide o que entra no SUS, rejeitou a incorporação da semaglutida e da liraglutida para obesidade ao apontar impacto de até R$ 8 bilhões aos cofres públicos. Em maio deste ano, a Anvisa aprovou a primeira caneta nacional de semaglutida, mais barata que as importadas, mas com indicação restrita a diabetes tipo 2. Neste mês, Padilha afirmou que o ministério monta um protocolo para começar por grupos específicos, como pacientes com obesidade e problema cardíaco e quem está na fila da cirurgia bariátrica, e descartou tratar o medicamento como milagre estético.
A fábrica visitada por Lula recebeu investimento de cerca de R$ 2 bilhões, opera desde o fim de 2025 e é o maior complexo da Eurofarma, com previsão de mais de 2 mil empregos diretos quando atingir a capacidade total. Depois do evento, o presidente seguiu para uma caminhada de campanha em Montes Claros ao lado de Patrus Ananias (PT), candidato ao governo de Minas. A oferta da caneta pelo SUS segue dependendo de avaliação técnica, definição de critérios de acesso e de um cronograma que o governo ainda não apresentou.























