O ex-governador Raimundo Colombo cobrou a abertura de inquérito e o afastamento do ministro do Supremo Tribunal Federal alvo das acusações que sacudiram Brasília nas últimas semanas. Candidato a deputado federal pelo PSD, ele resumiu a cobrança com uma imagem da própria toga em entrevista ao Estúdio JR, do Jornal Razão, conduzida pelo advogado e apresentador Kaiann Barentin. “O juiz que é rigoroso com os outros precisa primeiro ser consigo mesmo, meu Deus do céu”, disse. Colombo não citou nomes durante a entrevista.
Para o candidato, o caso já passou do ponto em que poderia ser abafado. “O tumor veio pra fora. Todo mundo sabe da doença que tá lá. Agora você tem que enfrentar”, afirmou. Colombo destacou que o ministro citado nas denúncias não se pronunciou para negar as acusações. “Não se preocupou em se defender, em esclarecer, em dizer que aquilo não correspondia à verdade”, disse. Engavetar o episódio, na avaliação dele, seria “uma irresponsabilidade com o futuro do Brasil” e “um crime com o futuro do Brasil”.
O ex-governador afirmou que uma proteção corporativa dentro da Corte cobraria um preço da sociedade. “Se os seus companheiros querem proteger o Supremo num processo colegiado, vão fazer um crime com a nação e terá que haver uma reação”, declarou. Ele se descreveu como um político moderado, mas disse que o momento pede posição. “Chegou o momento de reagir. Não dá. O exemplo que fica pra sociedade é o pior possível”, afirmou. “Não tem como não abrir o inquérito, não tem como não afastar o ministro acusado. Tem limites e eles passaram do limite.”
“Dos dezesseis deputados federais, nenhum é da nossa região”
Colombo explicou por que decidiu voltar às urnas depois de ter sido secretário de Estado aos 23 anos, deputado estadual, três vezes prefeito de Lages, deputado federal, senador e governador por dois mandatos. O motivo, segundo ele, é o vazio de representação da Serra catarinense. “Hoje, dos dezesseis deputados federais, nenhum é da nossa região. E se eu não fosse, sequer teria candidato”, afirmou. São necessários cerca de 100 mil votos para eleger um deputado federal em Santa Catarina, lembrou, e ele diz ter aceitado a disputa depois de muita dúvida. “Ficar em casa, poxa, seria um erro.”
A reforma tributária é a bandeira que ele coloca em primeiro lugar caso seja eleito, e a proposta que defende é adiar a implantação por pelo menos cinco anos. O ponto central da crítica é a troca da tributação na produção pela tributação no consumo, mudança que, na avaliação dele, penaliza um estado exportador de oito milhões de habitantes diante de mercados consumidores muito maiores. “Ela não tá pronta, ela vai criar grandes problemas na sociedade brasileira se for implantada no prazo que ela tá prevista agora”, disse.
O candidato usou a cadeia de proteína animal para explicar o risco. Santa Catarina é o maior produtor de suínos do país, o segundo de aves e o quarto de leite, mas precisa trazer de fora cerca de seis milhões de toneladas de grãos para fabricar ração, e hoje compensa esse custo com desoneração. Sem esse instrumento, diz ele, a conta muda de lado. “As empresas vão pra onde tem o insumo principal, a matéria-prima principal”, afirmou. Colombo apontou ainda o efeito sobre municípios pequenos, com pouco consumo e, portanto, pouca arrecadação. “Você vai tirar as pessoas das pequenas cidades e vai trazer pras grandes cidades. É tudo que nós não queremos.”
A comparação que ele faz é com a própria política tributária. No auge da crise econômica de 2013 e 2014, com o setor têxtil catarinense perdendo espaço para o produto chinês, o ICMS do segmento caiu de 17% para 2%. “Nós abrimos mão de quinze por cento dum setor muito importante de Santa Catarina. E nós recuperamos o setor”, disse. Sobre o discurso atual de que não houve aumento de impostos, fez uma ressalva técnica: o percentual sobre o combustível seguiu em 25%, mas a base de cálculo mudou. “Ele não tá mentindo, mas ele mudou a base de cálculo. E aí, claro, no volume você vai arrecadar mais.”
Para ele, caixa cheio não é sinônimo de bom governo. “A função do Estado não é ter dinheiro no banco. Então, tá sobrando dinheiro? Diminui o imposto, pô”, afirmou, defendendo corte na tributação da energia elétrica e dos combustíveis. “A melhor obra que cê faz é fazer com que o cidadão teja bem com o salário dele, com o recurso dele.”
Infraestrutura, acidentes e um projeto que ele chama de utópico
A infraestrutura é a segunda bandeira, e o candidato contou que enfrentou um acidente na estrada a caminho do estúdio. Ele citou cinco acidentes no trajeto até Joaçaba no fim de semana e ocorrências na SC-282 e na BR-101 no mesmo dia da entrevista. O percurso entre Florianópolis e Joinville, disse, leva três horas por causa dos gargalos. Sobre o projeto de ligação apresentado pelo governo do Estado, foi direto ao dizer que não resolve o presente. “Eu acho ele muito utópico”, afirmou, lembrando prazos de desapropriação e licenciamento ambiental. “Você não pode fazer um projeto pra cinquenta anos e ficar acomodado.”
No lugar de estudos caros, ele defende usar o que o Estado já tem. Colombo lembrou que, no seu governo, mandou cruzar os dados de acidentes da Polícia Rodoviária em vez de contratar consultoria, e diz que o levantamento apontou 157 pontos críticos que foram corrigidos um a um. “Você não precisa contratar uma empresa de consultoria pra fazer um estudo aprofundado, porque isso tá tudo disponível na mão do Estado.”
Ao avaliar a gestão de Jorginho Mello, o ex-governador separou os dois lados. “Sob o ponto de vista fiscal, o governo foi responsável”, reconheceu, ao lembrar que a arrecadação cresceu sem endividar o Estado. A crítica é política. Ele afirma que os repasses aos municípios passaram a obedecer à afinidade partidária, e não a critérios técnicos por faixa de população, como diz ter feito na sua administração. “Você é meu companheiro, leva tanto. Se você não é e quiser vim, leva tanto. Se não, você tá discriminado. Isso é um mau exemplo pra sociedade.” Sobre as entregas, resumiu: “Ele tem muita propaganda, mas obra tem pouco.”
Colombo também apontou o desgaste da relação entre o governo do Estado e o governo federal, algo que atribui igualmente à gestão anterior, e disse que a briga política não constrói nada. “Governar não é odiar, é se doar. É construir, não é destruir o outro”, afirmou. No pacto federativo, cobrou correções que considera atrasadas: pelo critério populacional, sustenta, Santa Catarina teria direito a 20 deputados federais e elege 16, e o Fundo de Participação dos Estados destinado ao estado está entre os menores do país. “Santa Catarina produz muito, paga muito imposto e recebe muito pouco de volta.”
O Pacto por Santa Catarina e a ponte que virou símbolo
Ao revisitar os oito anos de governo, o candidato recuperou o Pacto por Santa Catarina, programa criado quando percebeu que o crescimento do estado estava virando gargalo. A população saltou de seis para oito milhões de habitantes e a frota passou de 3,4 milhões para quase 7 milhões de veículos nas mesmas estradas. Do pacote saíram a restauração da ponte Hercílio Luz, o Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, com dezesseis pavimentos, a bacia de evolução do Porto de Itajaí e o centro de convenções. “O pacto enxergou o que ia acontecer com Santa Catarina e nós nos antecipamos, o que não tá acontecendo agora. A gente tá perdendo qualidade de vida porque os investimentos não estão acontecendo.”
A ponte foi o caso mais difícil. Colombo disse que a empresa contratada não tinha condições de executar a obra e que foi preciso uma disputa jurídica para rescindir o contrato. “Ela tava enrolando, ela tava enganando a sociedade e o governo”, afirmou. O governo foi então aos Estados Unidos procurar a construtora original da ponte, que recusou o serviço mas indicou a portuguesa Teixeira Duarte, responsável pela conclusão. Ele contou ainda que o impasse só destravou quando um procurador do Estado apontou que o caso não era reforma, e sim restauração. “Trocar uma palavra pela outra mudou todo o encaminhamento.” Sobre a disputa pela autoria da obra, alfinetou o antecessor Carlos Moisés: “Dizia que ele que fez a ponte Hercílio Luz, nem um parafuso arrumou.”
Derrotado na disputa pelo Senado em 2022 para Jorge Seif, nascido no Rio de Janeiro, Colombo disse ter percebido no meio da campanha que enfrentava uma onda. “Eu tava lutando contra um número. Ninguém sabia, nem queria saber quem era o candidato, da onde ele era”, afirmou. A crítica que faz é à representação de fora do estado em uma casa com apenas três vagas por unidade da federação. “É um ato de desamor com os catarinenses trazer alguém de fora que não nos conhece, que não convive conosco, pra ser o representante do estado catarinense.”
Fundador do PFL e hoje vice-presidente nacional do PSD, ele avisou que não vai forçar um personagem para acompanhar o clima das redes. “Eu não vou pegar um fuzil pra dizer que eu sou de direita, eu não preciso disso”, disse. “Vou ter que me vestir de palhaço pra chamar a atenção dos outros? Não, não vou fazer isso.” Ele se define como um homem de direita na economia e humanista por formação, e fez uma ressalva ao clima do estado em relação a quem chega de fora: “O imigrante, nós estamos tratando de uma forma muito refratária, muito desrespeitosa. E todos nós viemos de imigrantes que vieram povoar esse Estado aqui.”
O encerramento foi um apelo contra a abstenção, tema da campanha Vote com Razão, do Jornal Razão. Colombo reconheceu o cansaço do eleitor diante das denúncias, mas disse que o protesto pelo silêncio não muda nada. “Só a raiva é um sentimento que não transforma, ele apenas piora o que já é ruim”, afirmou. “Escolha dentro daqueles que você conhece, daquele que você confia, aquele que você se identifica, que você acha melhor e vote. Não se abstenha, nós temos que participar.”
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