Em cima do altar, diante da multidão e das câmeras que levavam o culto ao vivo para a internet e para as emissoras de TV da igreja, Flávio Bolsonaro chorou abraçado ao apóstolo Valdemiro Santiago. Era a manhã deste domingo (9), Dia dos Pais, na Igreja Mundial do Poder de Deus, em São Paulo. Menos de 24 horas antes, o senador havia recebido a notícia de que não poderia visitar o próprio pai.
O conselho que ele deu aos fiéis, portanto, veio com uma ironia embutida que ninguém precisou apontar. Encerrando a oração, Flávio pediu que quem estivesse brigado com o pai resolvesse a pendência ali mesmo, sem adiar.
“Abraça o seu pai, hoje pode ser a última vez.”
Ele falava de reconciliação familiar. Do outro lado da equação estava um pai que ele está judicialmente proibido de visitar.
A oração no altar
O senador começou pedindo que a plateia fechasse os olhos. Na sequência, orou por sabedoria, coragem, saúde e discernimento, e disse sentir que estava sendo usado para provocar um “avivamento nessa nação”, com a missão de resgatar não apenas o país, mas as almas.
Boa parte do discurso foi endereçada aos pais presentes e aos que assistiam pela transmissão. Flávio pediu que melhorassem a relação com filhos, filhas e esposas, e que se tornassem os pilares das próprias famílias. Foi ao falar do alcance da mensagem, que estimou em bilhões de pessoas, que a voz falhou e o choro veio.
Por que ele não pôde ver o pai
No sábado (8), o ministro Alexandre de Moraes julgou prejudicado o pedido apresentado pela defesa para que Flávio, Carlos e Jair Renan visitassem Jair Bolsonaro no Dia dos Pais. O ministro apontou que uma decisão anterior, de 17 de julho, já havia suspendido por 30 dias todas as visitas ao ex-presidente, com exceção de advogados e profissionais de saúde. Como o prazo não expirou, não houve exceção para a data. Relembre a decisão em Moraes nega pedido da defesa e Bolsonaro não poderá receber os filhos no Dia dos Pais em Brasília.
Aquela suspensão de julho, vale lembrar, foi decretada depois que o próprio Flávio publicou nas redes sociais uma carta escrita pelo pai, com apoio à sua candidatura à Presidência. Uma das medidas cautelares em vigor proíbe justamente que manifestações de Bolsonaro circulem em redes sociais, inclusive por meio de terceiros. Na mesma decisão, Moraes suspendeu por 90 dias especificamente as visitas do senador ao pai e encaminhou ao Ministério Público Eleitoral a determinação para apurar possível propaganda eleitoral antecipada envolvendo ele.
Na reação imediata ao despacho de sábado, o senador foi menos devocional. Criticou o ministro nas redes e avisou que a situação “tem dia e hora para acabar”, frase que a militância replicou ao longo do fim de semana.
O culto e o calendário
Vale registrar o contexto. Flávio é candidato à Presidência pelo PL e oficializou nesta semana o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice de sua chapa. Ao lado dele no culto estava o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, também candidato a uma vaga na Casa, acompanhado da filha, a deputada Dani Cunha (PL-RJ).
A Igreja Mundial não é um palco pequeno. A instituição mantém a própria emissora, a Rede Mundial, no ar desde 2006, cuja grade é formada praticamente só pelos cultos ao vivo do apóstolo, além dos horários que a igreja compra em outras redes de TV. Um culto de Dia dos Pais ali, em ano eleitoral, com fila de candidatos na plateia, não é exatamente um ambiente neutro. Nem por isso deixa de ser um púlpito.
O gesto também dá continuidade à estratégia que a família adotou desde a prisão: transformar a restrição judicial em pauta pública, com o custo pessoal como argumento central. No mesmo domingo, Carlos Bolsonaro publicou um vídeo em que diz se sentir “órfão de um pai vivo”.
Como Bolsonaro chegou até aqui
Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar em Brasília desde março, quando a medida foi concedida por razões de saúde após um quadro de broncopneumonia que o levou à terapia intensiva. Antes disso, esteve preso na Superintendência da Polícia Federal e, a partir de janeiro, na prisão do Batalhão da Polícia Militar no Complexo Penitenciário da Papuda.
A condenação já transitou em julgado. São 27 anos e três meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado.
Onde o caso está
A defesa apresentou pedido de reconsideração das restrições, sob o argumento de que seriam desproporcionais, e na terça-feira (4) Moraes determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifestasse. Não há decisão sobre esse ponto. O prazo de 30 dias fixado em 17 de julho continua correndo, e as visitas de Flávio seguem suspensas por 90 dias. Até lá, o conselho dado do altar continua valendo para todo mundo, menos para quem o deu.

































