O celular numa mão, a criança na outra e a BR-470 a menos de um metro do corpo. É assim que uma moradora do bairro Margem Esquerda, em Gaspar, no Vale do Itajaí, gravou o trajeto que faz todos os dias para chegar ao outro lado da rodovia federal. Sem passarela, sem faixa de travessia e com acostamento em apenas um dos lados, ela caminha na beira da pista enquanto carros e caminhões passam rentes, e espera uma brecha no fluxo para cruzar com os filhos.
“Esse é o espaço que a gente tem pra andar e pra atravessar na BR. O carro passa extremamente colado”, diz ela nas imagens, apontando para a faixa estreita de terra que sobra entre o asfalto e a vala. Em outro momento, mostra o ponto onde precisa cruzar: “A gente não tem uma travessia decente. Estamos abandonados e jogados aqui.”
O trajeto tem, pelo cálculo da própria moradora, entre 300 e 400 metros de rodovia. Nesse pedaço curto, ela conta que já escapou duas vezes de ser atropelada. “Os carros passam com uma extrema velocidade. Os caminhões passam mais rápido ainda e mais colado na gente ainda”, relata. As imagens mostram crianças a pé e de bicicleta no mesmo trecho, dividindo espaço com o tráfego pesado que liga o litoral ao Alto Vale.
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Quantas vidas mais a gente vai ter que perder pra tomarem uma providência?
A placa que ninguém foi descerrar na rodovia
A resposta oficial mais recente que a Margem Esquerda recebeu foi uma placa. No dia 26 de junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descerrou o monumento de entrega do Lote 2 da duplicação da BR-470, trecho que vai do km 18,61 ao km 44,82, entre Ilhota e Gaspar, com cerca de 26 quilômetros e R$ 528 milhões do Novo PAC. A cerimônia não aconteceu na rodovia. Foi no estaleiro Detroit Brasil, no bairro Salseiros, em Itajaí, durante agenda sobre a indústria naval.
O km 35, onde ficam a Rua Albertina Maba e a travessia do vídeo, está dentro desse trecho declarado concluído. Dias antes do ato, o DNIT havia liberado ali o viaduto de acesso principal a Gaspar, obra de aproximadamente R$ 40 milhões, com 880 metros de extensão e 19 metros de largura. Tudo para os veículos. Para quem atravessa a pé, nada.
O tapa na placa
O ato virou notícia nacional por outro motivo. Ao retirar o pano que cobria a placa, Lula pousou a mão esquerda exatamente sobre o trecho em que constava o nome do governador Jorginho Mello (PL), que não estava no evento. A placa trazia, como é praxe, autoridades federais, estaduais e municipais lado a lado.
Minutos antes, o ministro dos Transportes, George Santoro, havia afirmado que o governo federal ofereceu ao Estado uma carteira de concessões superior a R$ 24 bilhões e que Santa Catarina recusou entrar como parceira, ao contrário do Paraná. “Infelizmente, o governo de Santa Catarina não quis fazer projetos em parceria”, disse o ministro. Lula pediu o microfone, comparou os dois estados e cutucou: “E aqui nada?” No mesmo discurso, afirmou não saber nem o nome do governador e cobrou a ausência dele em eventos federais.
Jorginho Mello respondeu nas redes sociais horas depois. Negou ter recebido qualquer oferta e afirmou que os R$ 24 bilhões são, na verdade, um projeto de concessão para pedagiar rodovias estaduais. “Onde estão esses 24 bilhões?”, questionou, chamando o governo federal de picareta e cara de pau. O embate escalou no fim de semana: ao criticar a política estadual sobre cotas raciais, Lula falou em racismo e no que chamou de “senso de grandeza” dos catarinenses, citando Hitler ao mencionar hegemonia branca. O governador acusou o presidente de xenofobia e anunciou que acionaria a Procuradoria-Geral da República.
A conta que sobra para quem mora ali
Nenhum dos dois lados dessa briga entregou uma passarela na Margem Esquerda. A comunidade pede travessia segura desde 2015, quando o pedido foi oficializado em audiência pública registrada na Câmara de Vereadores de Gaspar. Em fevereiro de 2020, os moradores levaram ao DNIT um abaixo-assinado com mais de 700 assinaturas pedindo duas passarelas entre as ruas Albertina Maba e Bonifácio Zendron. Conforme a associação de moradores, mais de 250 famílias dependem daquele cruzamento.
Em novembro de 2021, três moradores foram atingidos por um carro ao atravessar a rodovia para ir ao mercado. Duas mulheres morreram no local e o terceiro não resistiu dias depois, no hospital, em Blumenau. O DNIT reconheceu a necessidade da estrutura na época, mas informou que o contrato de duplicação não previa passarelas. O que chegou foi um redutor eletrônico de velocidade, a partir de 2022, com fiscalização de 60 km/h. Em junho do ano passado, uma idosa de 75 anos morreu atropelada no mesmo km 35, e a comunidade voltou à rodovia em protesto, interditando o trecho por cerca de 30 minutos. Nos atos, as faixas resumem a cobrança: “Passarela já”, “6 mortos em 5 anos”, “DNIT, precisamos de solução”.
“Desde 2021, já perdemos seis vidas nesse trecho”, afirmou na ocasião o presidente da associação de moradores, Douglas Carlos Threiss. Em outubro de 2025, a Câmara de Vereadores de Gaspar levou o caso ao Ministério Público Federal, pedindo a apuração de eventuais ilegalidades e registrando que moções e requerimentos enviados ao DNIT desde 2020 nunca foram respondidos.
As 11 passarelas prometidas e o pedágio a caminho
Em janeiro deste ano, em visita às obras em Blumenau, o então ministro dos Transportes, Renan Filho, anunciou a construção de 11 passarelas ao longo da BR-470, cada uma estimada entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões, cerca de R$ 50 milhões no total. O edital deveria sair até março. “Espero ainda no primeiro semestre dar as ordens de serviço”, disse. O semestre terminou sem ordem de serviço divulgada.
Enquanto isso, o mesmo trecho caminha para a iniciativa privada. A ANTT abriu audiências públicas do projeto Rodovias Integradas, em que a BR-470 integra o Lote 1, com 515 quilômetros ao lado das BRs 282 e 153 e R$ 6,4 bilhões previstos em investimentos. O modelo é o free flow, sem cancelas, com tarifas estimadas entre R$ 3,36 e R$ 8,17 no Vale do Itajaí. É esse pacote de concessões que está no centro da disputa entre Brasília e o Centro Administrativo. O leilão, inicialmente previsto para novembro deste ano, já foi adiado.
A cobrança por passarelas voltou ao debate em toda a região depois que dois irmãos, de 7 e 14 anos, morreram atropelados na terça-feira, no km 164 da BR-470, em Pouso Redondo. Eles atravessavam a pista por volta das 6h45 para embarcar no transporte escolar, em uma manhã de forte neblina. A cidade decretou luto oficial.
Na Margem Esquerda, a rotina segue a que aparece no vídeo: caminhar na beira da pista, esperar a brecha entre um caminhão e outro e atravessar a rodovia federal a pé, com criança pela mão. “É risco diariamente. Não só pra gente que tem criança, pra qualquer um que mora no outro lado da BR”, resume a moradora. O pedido segue no Ministério Público Federal e não há data confirmada para o início das obras das passarelas.











































