Candidato ao governo de Santa Catarina pelo Missão (nº 14), o empresário e ex-diretor da Fesporte Marcelo Brigadeiro, de 44 anos, esteve no estúdio do Jornal Razão para uma entrevista de quase uma hora com o diretor Lorran Barentin. Carioca radicado em Balneário Camboriú há quase duas décadas, ele admitiu que a desistência anunciada na pré-campanha foi “jogada de marketing” para furar o bloqueio da imprensa, disse não ter dúvida de que vai ao segundo turno mesmo aparecendo com 2,5% nas pesquisas, defendeu privatizar a Casan, prometeu construir um presídio de segurança máxima de R$ 400 milhões no Meio-Oeste onde o preso terá “vida de inferno”, e disparou uma série de acusações contra o governador Jorginho Mello: do sócio do filho à frente de uma OS de saúde aos R$ 100 bilhões em isenções fiscais que, segundo ele, ninguém sabe para quem foram.
A desistência que não era desistência: “foi jogada de marketing”
O primeiro assunto da entrevista foi o episódio que marcou a pré-campanha: o anúncio de desistência que depois não se confirmou. Questionado por Lorran Barentin sobre a leitura de que aquilo teria sido medo ou fraqueza diante das pesquisas, Brigadeiro rebateu de imediato. “Qualquer pessoa que ache que tenha sido medo ou fraqueza é porque certamente não me conhece”, afirmou, antes de admitir a manobra: “Aí foi uma jogada de marketing mesmo, que nem foi bolada pela minha campanha, veio da minha cabeça.”
Segundo o candidato, o objetivo era romper o que ele classifica como um cerco dos grandes veículos. Ele acusa o governador de ter irrigado a imprensa: “A gente sabe que o Jorginho colocou algumas centenas de milhões de reais nos veículos de comunicação e eu precisava criar um fato pra que eu fosse noticiado.” A avaliação dele é de que a estratégia funcionou: “só o portal da Globo me noticiou duas vezes em vinte e quatro horas, a Record, todos os grandes veículos”. As afirmações sobre repasses e sobre a motivação da cobertura são versão do entrevistado.
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Brigadeiro também descarta as pesquisas eleitorais, que o colocam em torno de 2,5%. Ele diz que os mesmos institutos davam Carlos Moisés com “um por cento” e depois com “um traço” uma semana antes da eleição de 2018, campanha em que, segundo ele, montou o PSL em Santa Catarina, e que o resultado foi segundo turno e vitória. “Se eu tô com dois e meio faltando trinta dias, eu tô muito melhor do que o Moisés tava. Eu não tenho dúvida que eu vou pro segundo turno.” Ele acrescenta, sem citar nomes de institutos, que pesquisas já teriam sido anuladas por incluir Londrina e cidades do Maranhão como se fossem catarinenses. O entrevistador ponderou que os levantamentos são recortes e fotografias do momento, e insistiu na pergunta sobre musculatura para virar o jogo em pouco mais de um mês de campanha.
O carioca que chegou há 20 anos e a disputa por gestão
Brigadeiro contou que chegou a Santa Catarina há duas décadas fugindo dos problemas do Rio de Janeiro, problemas que, na avaliação dele, estão se aproximando do estado. Ele citou uma área de Criciúma que teria visitado na semana da entrevista e disse que ali há domínio do crime organizado. Empresário, ex-lutador de MMA e faixa-preta de luta-livre, ele afirma que veio “construir vida”, gerou “riqueza” e “emprego” no estado.
Sobre experiência de gestão, ele separa duas trajetórias. Na iniciativa privada, diz ter gerenciado “grandes projetos” para empresas fora do Brasil, num ambiente em que, segundo ele, “você é medido pelos seus resultados, e se você não der resultado, você tá demitido”. No setor público, sua única passagem foi como diretor de Esporte do estado, à frente da Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte), entre 2020 e 2022, no governo Carlos Moisés.
É desse período que vem uma de suas acusações mais diretas. Brigadeiro afirma ter criado o Bolsa Atleta Estadual, o programa de incentivo ao desporto escolar e o programa de iniciação esportiva, e diz que o atual governador se apropria dessas entregas: “o atual governador pega no colo como se fosse dele, mas não é, é projeto meu”. Ele também reivindica o georreferenciamento de toda a estrutura esportiva catarinense, incluindo escolas, praças e clubes privados, levantamento que, segundo ele, não existia antes de sua gestão.
“Santa Catarina não está tão ruim quanto SP e Rio, mas bem não tá”
Quando o entrevistador apontou que o estado está bem colocado em diversos índices nacionais, o candidato reformulou a frase e disparou uma sequência de números para contestar a narrativa oficial. “O nosso estado de Santa Catarina não está tão ruim quanto São Paulo e Rio de Janeiro, mas bem não tá.”
Na lista apresentada por ele: 120 mil pessoas na fila de espera por cirurgia, com esperas de até dois ou três anos; o 12º lugar no ensino médio do país; o dobro da média nacional de óbitos em rodovias; crescimento de 140% da favelização em Florianópolis; mais de 30% das escolas estaduais em condições precárias, segundo o próprio Tribunal de Contas do Estado; alertas do TCE e do Ministério Público sobre investimento insuficiente em prevenção de desastres; e piora da transparência no governo apontada por órgãos de controle. Os dados são atribuídos por ele a órgãos oficiais, mas foram apresentados de memória durante a entrevista.
Brigadeiro afirmou ainda que o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte) denunciou o governador Jorginho Mello porque a diretriz da Secretaria de Educação seria aprovar todos os alunos, a chamada aprovação automática, para melhorar índices. Trata-se de versão do entrevistado; a reportagem não obteve, na conversa, contraditório do governo estadual. Ele fecha o raciocínio com uma crítica ao marketing oficial: “Não estaremos bem enquanto o governador tiver gastando centenas e centenas de milhões de reais com publicidade para justamente encobrir a sua falta de entrega.”
Rompimento com Moisés, ataque ao bolsonarismo e ao Novo
Brigadeiro elogia o ex-governador Carlos Moisés, hoje candidato a deputado federal pelo União Brasil, dentro da coligação que apoia João Rodrigues (PSD) ao governo, mas explica por que não está ao lado dele: “ele optou por estar junto com uma coligação de partidos nos quais eu não acredito. Ele optou pelo caminho de estar junto da velha política.” Confrontado com a versão de bolsonaristas de que Moisés teria se elegido colado em Jair Bolsonaro para depois desembarcar, ele devolveu com dureza: “Os mesmos bolsonaristas que dizem que são Deus, pátria e família, cheiram cocaína, mete a porrada na mulher e desprezam os filhos? A opinião desse tipo de gente não vale nada pra mim.”
O candidato diz ter recusado o atalho eleitoral. “O caminho mais fácil era eu abraçar o bolsonarismo, abraçar o centrão, me lançar deputado federal, eu estava eleito.” No lugar disso, aposta na construção do Missão, partido que considera nacionalmente unificado, com mesmo discurso e mesmo programa, o Livro Amarelo, em versão específica para Santa Catarina. Ele cita correligionários em outros estados, entre eles André Luís, candidato ao governo do Maranhão, e Renan Hallais, candidato em Pernambuco, e crava: “No dia vinte e sete de agosto de 2026, o Partido Missão é o futuro do Brasil. Nós somos inevitáveis, vocês gostem ou não.” Sobre a corrida presidencial, afirma que a candidatura de Renan Santos, presidente da legenda, “é mais do que viável, é a única opção”, e ataca as duas alternativas que enxerga: quem votar em Lula estaria avalizando “a continuidade desse cenário caótico” e quem votar em Flávio Bolsonaro (PL) estaria “trocando o Petrolão e o Mensalão pelo Vorcarão”, em referência ao empresário Daniel Vorcaro, do caso Banco Master.
Barentin trouxe então a comparação com o Novo, partido que se apresentou como alternativa à política tradicional e acabou frustrando parte do eleitorado nas urnas com João Amoedo e Felipe d’Ávila. Brigadeiro respondeu que a diferença está nas pessoas e atacou pessoalmente Amoedo, fundador da legenda: “É um cara fraco. Você olha pra figura dele, você vê um cara fraco.” E usou linguagem agressiva contra o partido: “O Novo se acadelou. O Novo se satisfez em ser uma cadela do bolsonarismo.”
Perguntado se falava do Brasil ou de Santa Catarina, respondeu “aqui mais ainda” e citou o episódio em que o diretório catarinense do Novo, em junho, desconvidou o então pré-candidato à Presidência Romeu Zema de um encontro estadual em Joinville e ameaçou se posicionar contra a indicação dele, em nota assinada pelo presidente estadual da sigla, Kahlil Zattar. O estopim foram as críticas de Zema ao senador Flávio Bolsonaro depois do vazamento de um áudio do presidenciável com Daniel Vorcaro. A fala do candidato do Missão sobre o episódio, cheia de ironia e linguagem chula, foi uma das mais agressivas da entrevista.
Governabilidade: “no amor ou na dor”
O entrevistador cobrou como um governo com proposta agressiva de corte de comissionados e de secretarias sobreviveria diante dos 40 deputados da Alesc, num cenário em que o PL tende a eleger 14 ou 15. A resposta foi curta e dura: “É no amor ou na dor. Eles vão dar o tom, mas eles vão ter que se submeter.”
Brigadeiro diz que chega “de sangue doce” e propõe trabalho conjunto: “Não interessa nossas divergências, estamos aqui para servir o povo. Agora, quem quiser se servir do povo, aí vai ter problema.” Sobre indicações partidárias, admite que são legítimas se houver aderência entre currículo e cargo, e deu um exemplo concreto: manteria o atual presidente da Fesporte, do MDB, que foi seu gerente quando esteve na fundação. “Só agora, não venha querer botar um monte de parasita, que é o que tem hoje aí. Porque aí o sangue doce já vira terror e pânico.”
Um dos momentos mais tensos da conversa veio na discussão sobre os escritórios de Santa Catarina nos Estados Unidos e na China, que ele quer fechar. Barentin ponderou que há empresas catarinenses que se valem dessas estruturas para o comércio exterior. Brigadeiro desafiou o entrevistador a citar três empresas e disse que, se conseguisse, retiraria a proposta do plano de governo. Barentin recusou o enquadramento, afirmando que “seu compromisso tem que ser com o eleitor de Santa Catarina”, e registrou que o fato de não ter a lista à mão no estúdio não significa ausência de pesquisa da redação. O candidato sustentou a posição: as estruturas, na visão dele, servem “só pra manter apadrinhado político”.
Ele estende a crítica a toda a máquina: nomeações políticas de “pessoas altamente incompetentes” que, além de encarecer uma folha de R$ 1,2 bilhão por mês, sobrecarregam o servidor de carreira. “O servidor de carreira tem que fazer trabalho de dois, três. Aí vem a inoperância. Aí o resultado são cento e vinte mil pessoas aguardando cirurgia.”
Palácio da Agronômica, plano de saúde e colégio estadual para os filhos
A proposta de vender o Palácio da Agronômica rendeu uma disputa de autoria. O entrevistador contou que o candidato Ralf Zimmer (PRD) afirmou, em outra entrevista ao JR, que Brigadeiro pegou a ideia dele. A resposta veio com o primeiro sorriso da entrevista: “É só ir lá na linha do tempo. Eu publiquei a minha proposta muito antes do Ralf sequer confirmar a candidatura dele. Mas tudo bem. Parabéns, Ralf, excelente ideia.” Ele lembrou ainda que o deputado Jessé Lopes (PL) chegou a posar para foto com uma placa de “vende-se” no palácio durante o governo Moisés, e que a campanha teria acabado quando Jorginho Mello assumiu a residência oficial.
Para Brigadeiro, o palácio é símbolo do privilégio da classe política. “Por que que oitenta por cento da população de Santa Catarina tem que recorrer ao SUS e o governador, quando tem qualquer problema, ele pode pegar o helicóptero dele pro Albert Einstein?” Ele assume dois compromissos pessoais caso seja eleito: cancelar, no primeiro dia, o plano de saúde dele e da família, e tirar os filhos do colégio particular em Balneário Camboriú para matriculá-los na rede estadual. “Eu vou governar do front. Eu tenho que viver o que essas oito milhões de pessoas vivem.”
Casan privatizada e concessões em blocos
Perguntado diretamente sobre o que faria com a Casan, respondeu em uma palavra: “privatizar”. Barentin questionou o risco de aumento de tarifas e de a universalização do serviço ficar pelo caminho, e se a empresa vencedora levaria a rede até a última casa. O candidato defendeu concessões em blocos, vinculando cidades rentáveis a cidades pouco atrativas: “Cê quer ficar responsável pelo saneamento de Itapema, altamente rentável? Sim, mas cê vai ter que pegar Praia Grande também.”
Ele sustenta que a estatal já se mostrou ineficiente: fatura R$ 600 milhões por ano, carrega dívida de R$ 2,6 bilhões e não consegue ampliar a malha de esgoto, além de, segundo ele, ter acumulado escândalos de corrupção. A comparação é dura: “A Casan é como se fosse os Correios. Ineficiente, caro, não faz o que se propõe a fazer. E aí quem paga? É o catarinense.” Sobre os servidores, propõe programa de demissão voluntária para quem quiser sair e realocação dos demais em outras estruturas do governo. Questionado se privatizar é o único caminho, ponderou: “Eu acho que é o melhor caminho, não o único.” Sobre o que mais privatizaria, disse que só poderá responder no governo de transição, com acesso a contratos e números: “tudo que for ineficiente ou ineficaz tende a ser privatizado”.
Segurança: efetivo, guardas municipais e um presídio de R$ 400 milhões
Sobre a frase de que a polícia “vai matar mais” em seu governo, o entrevistador lembrou que legislação penal é competência federal e perguntou o que a PM deixaria de fazer hoje. Brigadeiro começou pelo efetivo: diz que a lei exigiria pelo menos 25 mil policiais militares em Santa Catarina, contra os 10 mil atuais, e 5.500 policiais civis, contra 3.300. Barentin apontou de imediato o impacto na folha, e ele admitiu: “Opa, temos.”
A conta, segundo o candidato, fecha por quatro vias: economia de R$ 40 milhões por mês com corte de 25% dos comissionados; revisão de R$ 100 bilhões em isenções fiscais concedidas, segundo ele, a empresas que ninguém sabe quais são; recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública para viaturas, armamento e treinamento, liberando caixa estadual para pessoal; e a margem da Lei de Responsabilidade Fiscal, já que o estado gastaria 39% da receita corrente líquida com folha, com teto de 49%. Barentin ponderou que política de isenção fiscal é histórica em Santa Catarina e não é invenção do governo atual; Brigadeiro contra-argumentou que “nunca chegou nem perto de cem bi” e que o problema é não se saber para quem foi.
Ele elogia o modelo das guardas municipais e diz ter três ações para elas no plano de governo: estimular municípios sem guarda a criá-las, condicionar repasses estaduais a indicadores de performance em segurança, e usar estrutura e instrutores da PM para treinar guardas. “Eu não posso pagar guarda. Eu posso treinar eles.” Defende ainda integração total entre Polícia Civil, Polícia Militar, Guarda Municipal, Polícia Rodoviária Estadual, Polícia Rodoviária Federal e Corpo de Bombeiros Militar, com central única e sistema de câmeras via convênio federal, e grupos de resposta rápida em motos para iniciar o atendimento das ocorrências.
A proposta mais dura é a construção de um presídio de segurança máxima no Meio-Oeste, em uma de três cidades ainda em estudo, com 1.100 vagas e custo estimado em R$ 400 milhões. Ele critica as “regalias” da unidade de São Cristóvão do Sul, como visita íntima e mais de uma hora de banho de sol, e detalha o regime pretendido: comida sem tempero, água só para sobreviver, uma hora de banho de sol, sem visita íntima, monitoramento 24 horas e visita de advogado gravada. “Se aqui em Santa Catarina tem um presídio de segurança máxima onde o cara tem uma vida de inferno, que é o que eu quero pra eles, inferno absoluto, ele não vai querer delinquir aqui.” Em tom irônico, disse que poderia pedir “conselhos” a João Rodrigues, hoje candidato ao governo pelo PSD, que “já esteve lá dentro”, e a Valdemar Costa Neto, presidente do PL condenado no mensalão.
Na pauta de proteção à mulher, aponta que o estado tem apenas 32 delegacias especializadas, nenhuma em municípios menores e nenhuma funcionando 24 horas, num cenário de alta de feminicídios e estupros. Ele citou o caso de uma adolescente de 16 anos vítima de estupro coletivo em Criciúma na semana anterior à entrevista. Barentin ponderou que índices altos também podem refletir uma polícia que funciona e canais de denúncia acessíveis; Brigadeiro respondeu com ironia: “Tomara que só aconteçam os feminicídios entre dez da manhã e seis da tarde, né?” Ele propõe ainda um cadastro estadual de agressores com monitoramento e georreferenciamento, acionando unidades rápidas de moto da Polícia Militar quando o agressor se aproximar da vítima.
Saúde: OSs, sócio do filho do governador e integração de sistemas
Na saúde, Brigadeiro repete que o problema não é dinheiro. Diz que o estado aplica R$ 10 bilhões na área, é obrigado constitucionalmente a destinar 12% da arrecadação e que a receita cresce ano a ano: R$ 57 bilhões neste ano, com projeção de cerca de R$ 64 bilhões no próximo. “Dinheiro sobra, falta gestão.”
Sua principal acusação é sobre as organizações sociais que administram hospitais: de 30% a 40% do repasse ficaria com as OSs, e apenas o restante chegaria ao médico, o que produziria, na cadeia, dificuldade de contratação e crescimento das filas. Ele promete auditar esses contratos e afirma que o governador Jorginho Mello colocou o sócio do filho para tocar a OS do Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, e que esse mesmo sócio, um dentista, hoje responde pelo SC Saúde. São acusações do candidato, sem apresentação de documentos durante a entrevista e sem manifestação dos citados. Ele conclui: “Tem muita coisa envolvendo escolhas pouco republicanas na área da saúde e, se eu for eleito, vai ter muita gente sendo presa.”
No campo da gestão, propõe integrar o sistema de saúde municipal ao estadual, já que hoje, segundo ele, o paciente atendido em UBS ou UPA entra de novo na fila ao ser encaminhado para média e alta complexidade. Também quer usar inteligência artificial e triagem por telemedicina para desafogar a rede, e interiorizar especialidades pagando melhor os médicos. Critica ainda a recusa do governador em manter relação institucional com o presidente da República e sugere criar um “escritório de convênios” para captar recursos federais e assessorar municípios.
Educação: reestruturação de carreira, 70% de ACTs e indicadores por escola
O entrevistador afirmou que, em sua avaliação, não falta dinheiro na educação, e o candidato concordou. Brigadeiro acusa Jorginho Mello de ter prometido reestruturação de carreira para profissionais da educação, saúde e segurança pública e não ter cumprido em nenhuma das três, tendo optado, segundo ele, por gastar em publicidade: “pra colocar o rosto dele em outdoor, que ele achou que era um uso mais devido”.
Ele descreve ainda uma distorção orçamentária: como o estado precisa aplicar 25% da receita em educação e a arrecadação é crescente, o governo chegaria ao fim do ano “desesperado pra gastar”, atrelando eventos esportivos à pasta para bancá-los com verba da educação. Outro gargalo apontado é o excesso de professores temporários, já que a lei admitiria no máximo 20% de ACTs e o estado teria 70%, o que gera rotatividade e quebra a relação aluno-professor.
Sobre a Udesc, diz que valorizará os professores, mas que seu foco está no ensino médio, elo entre a rede básica municipal e o ensino superior federal: “não adianta eu valorizar o professor da Udesc e chegar um monte de analfabeto funcional pra ele”. Ele quer premiar escolas com melhores índices e criar indicadores de performance, algo que, segundo conta, não existia nem para dados básicos quando esteve na Fesporte: o governo não sabia quais das 1.038 escolas estaduais tinham quadra ou tabela de basquete antes da compra de material esportivo. “É como você botar um capuz na cabeça e brincar de cabra-cega. Só que brincar de cabra-cega com o dinheiro do catarinense…”
Infraestrutura: fim do monopólio do ferry-boat e duplicação por conta do estado
Barentin levou ao candidato o gargalo logístico do eixo norte-sul, em que se leva quatro horas para sair de Joinville e chegar à região, questionando o prazo real do projeto da Via Mar, que exige projeto executivo, desapropriações e execução, e o que seria possível fazer de imediato sem empurrar tudo para o governo federal ou para a concessionária Arteris Litoral Sul.
A primeira medida citada por Brigadeiro é acabar com o monopólio do ferry-boat entre Navegantes e Itajaí. Ele pergunta por que a travessia está “há décadas na mão da mesma empresa” e por que a operadora só passou a aceitar Pix e cartão recentemente: “Alguma coisa me diz que pode ser que eu vá prender algumas pessoas ali também.” Seu plano prevê abrir mais quatro pontos de travessia no rio Itajaí-Açu em livre concorrência, com o serviço indo para quem oferecer o melhor preço. “Isso é rápido de fazer”, diz.
Sobre a duplicação da BR-101, reconhece que é alçada federal, mas afirma que não ficaria “de braços cruzados”: faria a obra com recurso estadual e abateria da dívida de R$ 11 bilhões do estado com a União, ou abriria uma via estadual paralela. Ele cita o precedente do governo Moisés na BR-470, com abatimento de R$ 450 milhões. “A gente paga um bi por mês. Se a gente parar de pagar um bi mês pro governo federal e botar um bi mês em infraestrutura aqui, rapidinho melhora.”
Campanha de vaquinha, debates e o recado ao eleitor
Brigadeiro revelou que não recebe fundo partidário nem eleitoral e que sua campanha se sustenta em arrecadação coletiva: “Eu tenho dez mil setecentos e quarenta reais nesse momento, na minha vaquinha.” A escolha, diz, é deliberada: “não tô indo atrás de recurso, nada disso, porque eu não quero ter rabo preso com absolutamente ninguém”. O entrevistador ponderou que a mudança de política de impulsionamento das grandes plataformas encareceu a propaganda digital e privilegia quem tem fundo partidário robusto.
Sem dinheiro para mídia, a estratégia é presencial: ele diz escolher uma cidade por dia, colocar uma cadeira no ponto de maior movimento, sentar e ouvir reclamações de quem passa. No dia da entrevista, o compromisso era às 14h na rua Felipe Schmidt, em Florianópolis; na sequência, Balneário Camboriú e Itapema. Ele acusa adversários de fugirem do confronto, citando o governador e Gelson Merísio (PSB), a quem chama de “poste do Lula”, e cobra espaço nos debates das emissoras: “Principalmente se os veículos de comunicação que dizem defender a democracia realmente trabalharem pela democracia e me chamarem pro debate.”
Questionado sobre um eventual apoio no segundo turno caso não esteja entre os dois primeiros, esquivou-se: “até acabar o primeiro turno, eu não conto nem com essa possibilidade”. Sobre a relação com um eventual quarto mandato de Lula, garantiu que separaria convicção pessoal de dever institucional: “Eu não vou colocar as minhas convicções pessoais à frente do bem-estar de oito milhões e duzentas mil pessoas. Eu vou é sugar tudo que eu puder do governo federal.”
Ao ser perguntado sobre o que reconhece de bom nas gestões recentes, elogiou Moisés, “tecnicamente muito bom, politicamente muito ruim”, e disse ter dificuldade em apontar acertos do governo atual. Citou o Programa Universidade Gratuita como algo que “poderia ser bom”, não fosse o levantamento do TCE que teria encontrado irregularidade em mais de 50% de 34 mil casos analisados, com filha de prefeito e quase mil milionários contemplados em política voltada aos mais pobres. Barentin ponderou que há aí um problema moral de quem frauda documentos para acessar dinheiro que não é seu, e o candidato concordou, mas insistiu na obrigação de fiscalizar: de mais de 18 mil casos levantados pelo TCE, segundo ele, o governo notificou cem.
Sobre a candidatura de Carlos Bolsonaro (PL), ex-vereador do Rio de Janeiro, ao Senado por Santa Catarina, Brigadeiro traçou uma distinção. Diz ter chegado há 20 anos, feito vida, pago impostos, gerado emprego e só depois entrado na política, enquanto “o Carlos chegou aqui sem nem saber onde é que ficava São José e se lançou senador, sem nunca ter contribuído com o Estado”. Mas rejeitou o ataque à origem: “Se você negar a contribuição dos açorianos, dos alemães, dos italianos, dos japoneses, dos gaúchos, dos paranaenses, você tá negando a história de Santa Catarina.”
No recado final, o candidato pediu que o eleitor indeciso o procure nas redes e pesquise sua trajetória, e traçou um cenário de urgência: enfrentar o crime organizado que estaria “tomando território” no estado, endereçar a questão migratória e a população em situação de rua, e resolver a saúde. “Talvez a gente não tenha a possibilidade de fazer mais uma má escolha esse ano e deixar pra endireitar daqui a quatro anos. Talvez daqui a quatro anos a gente não tenha mais como endireitar.”






















