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URGENTE: Moraes “dobra a aposta” e transforma Mendonça em alvo do próprio inquérito das fake news

Em decisão assinada na noite desta quinta-feira (3), Alexandre de Moraes acusa André Mendonça de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero, e envia o caso ao presidente do STF, Edson Fachin.

URGENTE: Moraes “dobra a aposta” e transforma Mendonça em alvo do próprio inquérito das fake news
Foto: Reprodução
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O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, virou a mesa da maior crise interna da Corte em anos. Em decisão assinada na noite desta quinta-feira (3), ele usou o Inquérito das Fake News, aberto em 2019 e sob sua relatoria desde então, para apontar “fortes indícios” de que o colega André Mendonça cometeu improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. O documento foi enviado ao presidente do Supremo, Edson Fachin, com pedido expresso de providências contra o outro ministro.

A ofensiva de Moraes é resposta direta ao golpe que ele levou dois dias antes. Na terça-feira (1º), Mendonça derrubou o sigilo de um relatório da Polícia Federal produzido a partir do celular apreendido com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Das 218 páginas do documento, 188 tratavam de Moraes. A PF identificou 187 interações entre o banqueiro e o ministro, além de ao menos seis encontros presenciais.

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Ministros do STF rindo nos corredores da Corte após sessão do plenário
Registrada pelo fotógrafo Brenno Carvalho, do jornal O Globo, a imagem mostra os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes rindo nos corredores do STF após a sessão do plenário desta quarta-feira (2), um dia depois de o relatório da Polícia Federal sobre o celular de Daniel Vorcaro vir a público. De costas, aparece uma quarta autoridade não identificada. Foto: Brenno Carvalho / Jornal O Globo

AS ACUSAÇÕES DE MORAES CONTRA MENDONÇA

Na decisão desta quinta, Moraes sustenta que Mendonça praticou uma série de condutas tipificadas, entre elas quebra de imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos, justamente por ter retirado o sigilo do relatório. O ministro afirma que o colega cometeu usurpação da direção das investigações das autoridades policiais nas operações Sem Desconto, o escândalo dos descontos no INSS, e Compliance Zero, que apura o Banco Master.

A lista de acusações vai além. Moraes aponta condução irregular das tratativas de eventual colaboração premiada de Vorcaro e direcionamento de alvos específicos para investigação por motivos pessoais e políticos. Os dois alvos que ele cita nominalmente são ele próprio e o senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Segundo o texto, teria havido até indicação prévia, pelo relator, das medidas cautelares que a Polícia Federal deveria apresentar.

Indícios crescentes de enviesamento da condução da supervisão judicial, manifestados em direcionamento temático de intensidade progressiva quanto a linha investigativa determinada

Moraes também escreve que houve “flagrante perda da imparcialidade” e acrescenta um ponto que, se acolhido, pode derrubar a própria prova que o expõe: a quebra da cadeia de custódia do material apreendido.

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COMO A CRISE CHEGOU ATÉ AQUI

A cronologia ajuda a entender o tamanho do estrago. Em 24 de agosto, Mendonça determinou à Polícia Federal um prazo de 72 horas para detalhar por escrito o conteúdo do celular de Vorcaro. Em 1º de setembro, levantou o sigilo do resultado. Na mesma noite, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade da decisão, em menos de doze horas, quando tinha até cinco dias para se manifestar.

O argumento de Gonet foi de dupla nulidade. Primeiro, porque juiz não conduz investigação pré-processual: “Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais. Não lhe é dado valer-se da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas”, escreveu. Segundo, porque ministro do Supremo só pode ser investigado com autorização do plenário da Corte, e não por decisão isolada de um colega.

Gonet, no entanto, também aparece no relatório. O documento da PF registra que, por intermédio do advogado Ciro Soares, o procurador-geral teria manifestado a Vorcaro a expectativa de fumar charuto e beber uísque Macallan em um evento organizado pelo banqueiro em Londres. Em mensagem de outubro de 2025, Vorcaro escreveu que era importante reforçar com “Andrei” e “Paulo” para que ninguém “de baixo” atrapalhasse, referências ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao próprio procurador-geral.

O embate entre os dois ministros também respingou fora do tribunal. Uma foto registrada nos corredores do Supremo após a sessão do plenário de quarta-feira (2), que mostra Moraes rindo ao lado de Cristiano Zanin e Gilmar Mendes um dia depois da divulgação do relatório da PF, viralizou nas redes sociais e provocou uma onda de críticas. Entre os que reagiram publicamente está o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que escreveu: “Esse é o sorriso tranquilo de quem sabe que é intocável”. A imagem, isoladamente, não revela o conteúdo da conversa entre os ministros.

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A BOLA ESTÁ COM FACHIN

Fachin levou mais de 20 horas para se manifestar depois do movimento de Mendonça e, quando o fez, colocou os dois lados no mesmo patamar: citou a “atuação processual” do relator antes de mencionar os “sérios elementos de fatos” revelados sobre Moraes. O recado foi de que os indícios precisam ser apurados, mas que os fins não justificam os meios, e de que o cargo de ministro do Supremo impõe “deveres, limites e responsabilidades”.

Agora Fachin tem duas peças na mesa apontando para lados opostos: o pedido de Mendonça para incluir Moraes como investigado no Caso Master, que depende de aval do plenário, e a decisão de Moraes pedindo providências contra Mendonça. Pelo Regimento Interno, cabe ao plenário processar e julgar os próprios ministros em crimes comuns, e a abertura de inquérito precisa ser provocada pela PGR ou determinada de ofício pelo presidente da Corte. Crime de responsabilidade de ministro do Supremo, porém, é julgado pelo Senado.

O calendário deixa o embate ainda mais explosivo. A queda de braço se dá a cerca de um mês das eleições, com o STF novamente no centro do debate político e as duas alas da Corte já contando votos. O caso corre agora sob a mesa de Fachin, que decidirá o que leva a plenário e quando.

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