Faixas de pano tomaram a fachada de um imóvel parado havia anos na Rua Aquidaban, no bairro Glória, em Joinville. Em uma delas, escrita à mão, a frase “é pela vida das mulheres pelo socialismo”. Logo abaixo, um banner vermelho com o rosto de uma operária batiza o lugar: Casa da Mulher Operária Elvira Boni. A ocupação começou na manhã de sábado (1º) e, desde então, integrantes do grupo capinam o terreno, limpam o interior da casa e organizam o espaço.
A ação é do Movimento de Mulheres Olga Benario, que atua em diferentes estados. Segundo a organização, o imóvel estava desocupado e sem uso, e a proposta é transformá-lo em um ponto de acolhimento para mulheres em situação de violência.
O que o grupo pretende
De acordo com o movimento, o local deve oferecer apoio psicológico, orientação jurídica, assistência social e atividades de formação voltadas a mulheres trabalhadoras. O grupo afirma que a iniciativa integra uma rede nacional com mais de 50 ocupações semelhantes espalhadas pelo país.
O nome escolhido para o espaço é apresentado pela organização como uma referência histórica. Elvira Boni é descrita pelo movimento como uma das pioneiras da organização das mulheres trabalhadoras no Brasil.
Por que Joinville
A justificativa para a escolha da cidade aparece em vídeo divulgado pelo próprio grupo.
Joinville é a cidade que mais mata mulheres nesse estado.
A fala é de uma integrante do movimento na gravação, que também cita o número de mulheres assassinadas em Santa Catarina neste ano.
Os dados citados pela organização convergem com levantamentos oficiais mencionados na repercussão do caso. Informações do Ministério Público apontam Joinville como o município com maior número de feminicídios do estado nos últimos anos, e Santa Catarina soma 36 registros em 2026.
Entre janeiro e julho deste ano, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina distribuiu 952 medidas protetivas na cidade. Joinville conta atualmente com uma casa abrigo, com capacidade para 24 pessoas.
Entre as reivindicações apresentadas pelo movimento está o fortalecimento da rede pública de atendimento. O grupo aponta que a região não dispõe de uma Delegacia da Mulher exclusiva, e que a demanda é absorvida pela DPCAMI, que também atende outros públicos.
A organização informou que o espaço permanecerá aberto para receber apoiadores e voluntários, e pede doações de produtos de limpeza, alimentos, água, protetor solar e luvas para viabilizar a limpeza do terreno. Um almoço coletivo foi anunciado no local.
Imóvel sem dono confirmado
A titularidade do imóvel não foi confirmada oficialmente. Publicações sobre o caso divergem sobre quem é o proprietário, e não há, até o momento, esclarecimento formal sobre a situação registral do terreno. A Prefeitura de Joinville foi procurada para informar a quem pertence a propriedade e se há alguma medida prevista em relação à ocupação. Até a publicação desta reportagem, o Município realizava consultas internas e não havia enviado posicionamento oficial.
Nas redes sociais, a ocupação dividiu opiniões. De um lado, apoiadores sustentam que imóveis sem utilização devem cumprir função social e que a cidade carece de estrutura para acolher mulheres vítimas de violência. De outro, críticos classificam a ação como invasão de propriedade, questionam quem arcará com a manutenção do espaço e defendem que o poder público resolva a demanda por via institucional.
Juridicamente, a discussão costuma esbarrar em dois pontos. A Constituição estabelece que a propriedade deve atender à sua função social, mas o ordenamento também protege o direito de propriedade, e disputas desse tipo são normalmente resolvidas na esfera cível, por ação de reintegração de posse movida por quem comprova a titularidade. Não há informação sobre pedido judicial em relação ao imóvel da Rua Aquidaban.
Até a publicação desta reportagem, o espaço seguia ocupado e sem qualquer medida oficial anunciada.


































