Um vídeo gravado em 16 de junho voltou a circular com força nas redes sociais nesta terça-feira (1º) e passou o dia entre os assuntos mais comentados. Nele, o ministro André Mendonça responde a Gilmar Mendes durante sessão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, no julgamento que manteve a prisão do pai e do primo do banqueiro Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero.
O trecho mais compartilhado é aquele em que Mendonça, relator do caso Banco Master, afirma ter recusado uma proposta de delação apresentada pela defesa. “A defesa até apresentou a primeira proposta de delação. Eu não quis acessar, ministro Gilmar”, disse, dirigindo-se diretamente ao colega.
Na sequência, relatou como a oferta teria chegado: “Me chegou uma proposta por um advogado. Perderam o pudor. ‘Queremos fazer uma delação seletiva’. Falaram na minha cara isso. Eu disse: não faço questão de delação. Agora, delação seletiva comigo não”.
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O contexto da sessão de junho
A fala foi uma resposta a críticas feitas por Gilmar Mendes, que na mesma sessão comparou a condução do caso à Lava Jato e questionou as prisões decretadas. Em outro momento do voto, Mendonça afirmou não ter medo do cargo, da imprensa nem de pressões, numa frase que também viralizou: “Não tenho medo da morte”. Ele disse ainda que não iria transformar o certo em errado e classificou como abjeta a hipótese de prender alguém para forçar colaboração.
Na ocasião, o embate foi lido como mais um capítulo do desgaste entre os dois ministros. Os cortes publicados por canais como Gazeta do Povo e Folha Política acumularam mais de um milhão de visualizações cada.
Por que o vídeo voltou nesta terça
O ressurgimento está ligado às movimentações do caso Master ao longo desta terça. Mendonça retirou o sigilo da petição que reúne o relatório da Polícia Federal sobre o material extraído do celular de Vorcaro e decidiu submeter o conteúdo ao plenário do Supremo, em sessão presencial e pública. A Procuradoria-Geral da República tem cinco dias úteis para se manifestar.
O relatório sustenta que mensagens enviadas pelo banqueiro tinham como destinatário um contato salvo em seu aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Entre elas, o pedido para que o interlocutor intercedesse junto a “Andrei” e “Paulo”, identificados pela PF como o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O documento também aponta que a última versão do contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro teria sido editada em um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, que cartões do banco teriam sido liberados aos filhos do casal e que cotas de um jato e de um helicóptero teriam sido repassadas à advogada como forma de pagamento. Nos dias anteriores à prisão, o banqueiro escreveu ao mesmo contato que tinha uma “dívida de vida” com ele e, no dia seguinte, perguntou se já precisava deixar o país.
O que ainda não está decidido
No despacho em que derrubou o sigilo, de 218 páginas, Mendonça não cita Alexandre de Moraes nominalmente e não determina a abertura de investigação contra o colega. Por se tratar de ministro do Supremo, apenas o plenário pode autorizar uma apuração desse tipo, e nada foi protocolado até a publicação desta reportagem.
O próprio relatório da PF utiliza expressões como “pode indicar” e “possivelmente” ao tratar das identificações, e registra que a análise não foi exaustiva, em razão do prazo de 72 horas fixado pelo ministro. Moraes nega ter trocado mensagens com Vorcaro, e ele e a mulher sempre negaram irregularidade no contrato do escritório. Procurados, não se manifestaram.
Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025 no Aeroporto de Guarulhos e o Banco Master foi liquidado no dia seguinte. Solto no fim daquele mês, voltou a ser preso em 4 de março de 2026 e está no 19º Batalhão da PMDF, em Brasília, com duas propostas de delação rejeitadas. A fraude estimada é de R$ 12 bilhões, e o custo para o Fundo Garantidor de Créditos chega a R$ 51,8 bilhões.























