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Após Moraes acusar Mendonça, Lula diz que democracia não pode ser “refém de vazamentos seletivos”

Presidente gravou vídeo divulgado minutos depois de Alexandre de Moraes acusar André Mendonça de abuso de autoridade e crime de responsabilidade, e no mesmo dia em que Edson Fachin abriu prazo de cinco dias úteis para os envolvidos se manifestarem.

Após Moraes acusar Mendonça, Lula diz que democracia não pode ser “refém de vazamentos seletivos”
Foto: Reprodução
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou um vídeo na noite desta quinta-feira (3) para se pronunciar sobre a crise que rachou o Supremo Tribunal Federal. A manifestação veio poucos minutos depois de Alexandre de Moraes acusar formalmente o colega André Mendonça de abuso de autoridade, crime de responsabilidade e improbidade administrativa. O intervalo curto entre a decisão vir a público e o vídeo ir ao ar indica que a gravação já estava pronta. No mesmo dia, o presidente da Corte, Edson Fachin, abriu prazo para que os envolvidos expliquem o que está acontecendo.

Lula abriu com a frase mais dura do pronunciamento. Chamou o escândalo do Banco Master de maior roubo da história do Brasil e afirmou que o esquema atingiu milhões de pessoas em muitos estados e municípios. Em seguida, apontou o que classifica como a raiz política do caso: “O banqueiro, líder do esquema, tem relações com muita gente poderosa. E foi no meu governo que ele foi preso e seu banco fechado.”

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O presidente reconheceu a existência de suspeitas sobre agentes do próprio Estado. “Há suspeita de políticos e agentes públicos envolvidos”, disse. Na sequência, deu o recado que interessa diretamente à guerra travada dentro do Supremo: “Nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos.”

ASSISTA AO VÍDEO

Capa do vídeo do YouTube

A frase carrega peso. Foi Mendonça quem derrubou, na terça-feira (1º), o sigilo do relatório da Polícia Federal que expôs a troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e um interlocutor identificado como Moraes. A retirada do sigilo é justamente o ato que Moraes agora aponta como favorecimento a determinados grupos políticos.

Lula então cobrou nominalmente as duas instituições que podem dar o próximo passo. Disse que o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações. E completou afirmando que só agindo com firmeza e transparência as instituições serão respeitadas pela sociedade.

É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer

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Ele encerrou dizendo que o povo brasileiro tem o direito de saber a verdade. Antes disso, Lula afirmou que ficou claro que os sistemas político e judiciário do país precisam de reformas profundas.

O QUE MORAES ACUSA

O pronunciamento não caiu no vazio. Minutos antes, Moraes encaminhou a Fachin um pedido formal de providências contra Mendonça. No documento, sustenta haver fortes indícios de que o colega cometeu abuso de autoridade, crime de responsabilidade e improbidade administrativa na condução das operações Compliance Zero e Sem Desconto, das quais Mendonça é relator.

Para alcançar o colega, Moraes recorreu ao inquérito das fake news, aberto pela Portaria GP nº 69, de 14 de março de 2019, e que está sob a relatoria dele próprio. A investigação nasceu para apurar notícias fraudulentas, denunciações caluniosas e ameaças que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo, de seus membros e familiares, incluindo o vazamento de informações e documentos sigilosos.

Na decisão, Moraes acusa Mendonça de quebra de imparcialidade judicial, de “usurpação da direção das investigações das autoridades policiais” e de conduzir de forma irregular as tratativas de uma eventual colaboração premiada de Vorcaro. Também afirma que o colega direcionou alvos por motivos pessoais e políticos, citando a si próprio e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e que chegou a indicar previamente à Polícia Federal quais medidas cautelares deveriam ser pedidas.

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FACHIN DÁ CINCO DIAS

O presidente do STF deu prazo de cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentem informações sobre os desdobramentos do caso. O despacho foi assinado depois de Mendonça defender que os elementos reunidos pela PF sejam analisados pelo plenário e de a PGR pedir a extinção do procedimento. Fachin afirmou que cabe à Presidência da Corte garantir que uma eventual análise colegiada respeite o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório.

A posição de Lula no tabuleiro é delicada. Na terça-feira (1º), o presidente recebeu separadamente Gilmar Mendes e Fachin. Na conversa com Gilmar, segundo a Coluna do Estadão, o decano defendeu que a Polícia Federal reaja a determinações de Mendonça quando as considerar excessivas ou ilegais. O relator do caso Master também comanda as apurações sobre fraudes no INSS, que avançaram sobre Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente.

O impasse agora está inteiramente nas mãos de Fachin. Pelo Regimento Interno do Supremo, o plenário tem competência exclusiva para processar e julgar seus próprios ministros, e a abertura de inquérito precisa ser provocada pela PGR ou determinada de ofício pela presidência. Se um inquérito contra Moraes for aberto, será a primeira vez na história que um ministro da Corte se torna alvo de investigação policial. No Senado, os pedidos de impeachment seguem parados nas mãos de Alcolumbre.

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